[Treino] Seth

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Mensagem por Led de Coma Berenices em Sab Abr 25, 2015 10:11 pm





    - “Nam et si ambulavero in valle umbrae mortis, non timebo mala, quoniam tu mecum es. Virga tua et baculus tuus, ipsa me condolata sunt”.
    A voz de Agares tirou Seth de seus pensamentos distantes. O velho andava na frente, ainda montado em seu crocodilo e acariciando Falcon, pousado em sua mão direita. Caminhavam há cerca de dez minutos num escaldante deserto que contrastava completamente com o deserto de gelo do qual eles haviam acabado de sair. O calor era tão intenso que por vezes o aspirante a cavaleiro imaginou ter visto um palácio distante, repleto de palmeiras e água fresca, mas descobrira depois que era apenas uma miragem, uma alucinação resultante da desidratação e insolação. O ar que entrava em suas narinas queimava mais do que o ar frio que ele respirara nos últimos oito anos e, nesse momento, o que ele mais pensava era em voltar para aquela terra gelada e inóspita.
    - O que disse?
Seth não conseguia evitar mostrar que estava extremamente irritado e insatisfeito naquele lugar. Ele sabia, ainda que inconscientemente, que teria atacado e assassinado a sangue frio qualquer outro homem que não fosse aquele velho estranho que caminhava na sua frente. Talvez porque o velho o “resgatara” (mesmo ele não querendo ser), talvez porque ele mostrara ser um demônio do mais alto grau e então o subconsciente de Seth o mandava obedecê-lo para evitar que fosse morto. Ou talvez fosse puramente um ato de instinto animal, onde o mais fraco se submete à liderança do mais forte até o momento certo de aplicar-lhe um golpe e tomar-lhe o poder. E Seth sabia que, nesse momento, ele era muito mais fraco do que aquele velho.
    Agares se virou para ele.
    - “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam” – Ele disse, extremamente impaciente.
    - Por que recita A Bíblia? – Seth perguntou, lembrando que aquele era um versículo das sagradas escrituras, de uma forma confusa. Por que haveria um demônio de recitar uma das passagens mais conhecidas da Bíblia? E por quê, se ela nada tinha a ver com o que estava acontecendo?
    - Por nada – Agares respondeu, dando de ombros. – Apenas gosto de algumas passagens. O que foi? Só porque eu sou um demônio eu não posso conhecer A Bíblia? Vocês humanos e jovens têm a mente muito fechada.
    Seth entendia a verdade por trás daquele comentário. Até um dia atrás ele jamais acreditaria em mais do que seus olhos pudessem ver. Acreditava nas forças da natureza e tinha o devido respeito a elas, mas algo como demônios e cavaleiros eram novidade para ele. E ele talvez ainda achasse que era tudo uma pegadinha, se não fosse por algo que aconteceu há alguns minutos.
    Um pouco antes de chegar naquele deserto eles ainda se encontravam nas frias e solitárias terras geladas. Caminharam por cerca de cinco minutos através da nevasca até acharem um barco velho e grande, muito danificado. Aparentemente fora o barco que Agares e os três soldados usaram para chegar lá, e aparentemente ele não sairia mais do lugar.
    Não fez perguntas enquanto subia a bordo do barco com o velho, que cantarolava alegremente, despreocupado. Por dentro o barco era escuro e cheirava a mofo. Em alguns pontos Seth pôde ver pequenas rachaduras, de onde haviam se formado poças rasas de água salgada e cheia de limo. O barulho de goteira ao fundo dava a entender que o barco estava completamente úmido por dentro, como se nunca houvesse sido limpo. Isso e o fato de lençóis manchados de sangue encontrarem-se jogados a esmo pelo chão, o que levou Seth a pensar que aquele era um barco onde se carregaram pessoas enfermas ou, por vezes, escravos. Não que ele se importasse, é claro, afinal a vida de outras pessoas não lhe dizia respeito enquanto não interferissem em sua própria.
    Ao final do corredor havia uma porta do que parecia ser um dormitório. Ao mesmo tempo aquela porta de madeira real e nova parecia deslocada em conjunto com aquele barco fétido e velho. Agares olhou para trás e deu um sorriso. Então abriu a porta e saiu da frente, para que Seth pudesse ver o que havia depois. E o que ele viu foi o bastante para achar que estava sonhando.
    Do outro lado da porta ele via outro lugar, completamente diferente dali. Via montes infinitos de areia, um céu completamente azul e tremulações que mostravam claramente que ali a temperatura era intensa. O velho disse algo sobre poderes psíquicos e demônios, mas Seth não prestou atenção, pois estava abismado com tudo o que havia visto naquele dia. Percebeu apenas que Agares atravessou aquela porta (ou talvez portal) e chegou do outro lado intacto. O velho olhava para ele e fazia gestos como se abanasse, mostrando que ali realmente estava quente. Pela primeira vez Seth viu o crocodilo se mover por vontade própria, parecendo realmente satisfeito naquele deserto.
    Depois de tomar coragem e respirar fundo, o aspirante a cavaleiro atravessou a porta e imediatamente sentiu sua pele queimar. O choque térmico fora tanto que por um segundo ele recuou um passo e voltou para onde estava antes, aproveitando um pouco mais do ar frio. Seu braço, no entanto, ficara do outro lado da porta, o que lhe causou certa estranheza, já que em um braço ele sentia um calor escaldante e em outro um frio que para ele agora era agradável. Tomou coragem e atravessou de vez.
    Naquele deserto havia apenas a porta que eles haviam acabado de atravessar, uma solitária porta mantida de pé por uma força invisível. Agares fechou a porta calmamente e pronunciou algumas palavras em uma língua desconhecida para Seth, e então a porta sumiu como se evaporasse pouco a pouco, se tornando poeira do deserto. Desde então Seth já não mais duvidada de nada.

    - Está na hora – Agares disse, pulando de seu crocodilo. – Está na hora do seu teste derradeiro para saber se está apto.
    - Teste derra…
    Seth começou a falar, mas foi logo interrompido por algo que bateu em seu rosto com tanta força que o jogou para o alto e o empurrou para longe do velho. Ele pensou em protestar, mas quando levantou a cabeça, limpando-se da areia que havia grudado em seu cabelo, viu que ali, de pé na frente dele, havia uma pessoa. O homem de muito mais que dois metros de altura, apenas usando uma calça branca de pano esfarrapado e uma bota que se entrelaçava até a panturrilha, de pele bronzeada e extremamente musculoso o encarava bufando, como se tivesse sede por morte. Talvez a mesma sede que Seth tinha.
    - Que apresentação rude, Eli – Agares falou, reprimindo o negro gigante, que respondeu com algo que parecia um pedido de desculpas. – Meu jovem, conheça Eli. Ele é um dos demônios menores de minha legião e adora uma boa briga. Oh, por favor, não repare no nome que eu dei a ele, é apenas uma pequena brincadeira, assim como todos os nomes que dou.
    Vendo que Seth continuava caído no chão, ele continuou.
    - Aqui ele se encontra em sua forma humana, portanto perde grande parte de seus poderes, assim como eu, é claro. Eu o trouxe para cá como forma de te dar um último desafio, uma batalha de verdade até a morte com um demônio especializado em brigas, o que acha disso? – Ele sorriu. Em seus olhos havia uma chama que Seth ainda não vira. – Sinta-se livre para matá-lo, ele é um demônio. Corpos materiais são fáceis de conseguir hoje em dia. Entenda que eu tomei a liberdade de fazer esse último teste apenas para matar a minha vontade de ver sangue e dor. Espero que não seja seu sangue ou sua dor, porque eu realmente desejaria cumprir minha parte no acordo de te levar para lá com vida, mas enfim… Por favor, lutem e se matem! – Ele abriu os braços e deu uma alegre risada. – Como eu amo a Terra!
    O gigante urrou e de sua boca saíram diversas gotas de saliva, como se quisessem dizer que ele estava salivando para matar aquele homem na frente dele. Seth levantou-se num salto e pôs-se a correr na direção de Eli, que abriu os braços e arreganhou a boca, mostrando que o que restava dos dentes de sua boca estava podre.
    Empurrando uma imensa quantidade de areia com seus pés, Seth chegou à frente de Eli e abaixou antes que ele pudesse agarrá-lo, dando-lhe um soco direto na boca do estômago. Vendo que o homem se abaixou urrando de dor, Seth afastou-se um passo e deu um chute giratório (que ele sabia fazer desde que acordara, há oito anos, mas não sabia como aprendera) em cheio na mandíbula do homenzarrão, que cuspiu uma boa quantidade de sangue (e talvez mais um dente) e caiu na areia de barriga para baixo.
     A sede de sangue de Seth havia voltado com todas as suas forças. Tomou uma postura animalesca e mostrou os dentes, como se quisesse inibir qualquer outro inimigo de chegar perto. Fez um barulho que mais parecia um rugido e correu na direção do homem caído, planejando matá-lo naquele momento. Mas foi pego de surpresa. O homem virou-se com uma velocidade incrível e esticou a perna esquerda, levantando uma enorme quantidade de areia, enquanto jogava seu corpo para cima. O peito do pé do homem acertou o queixo do aspirante a cavaleiro e tirou-o do chão. Antes que ele pudesse cair, o homem já estava de pé socando-o diversas vezes no abdômen e no tórax. O último soco acertou em cheio o esôfago de Seth, que caiu ajoelhado procurando por ar. Antes que ele o achasse, entretanto, Eli segurou a parte de trás de sua cabeça com a mão esquerda e a puxou com toda a sua força ao mesmo tempo em que levantava o joelho direito. A cabeça de Seth encontrou o duro e forte joelho de Eli num baque alto junto do barulho de algo se quebrando.
    Seth foi jogado para trás violentamente e caiu de costas na areia. Podia sentir que seu nariz havia se quebrado e agora estava jorrando sangue. Sentia também que poderia estar com um ou duas costelas quebradas decorrente dos potentes socos daquele homem gigante.
    - Oh, não… - Seth ouviu a voz de Agares, distante e abafada. – Será que eu dificultei muito as coisas?
    Aquele homem merecia morrer. Isso era tudo o que se passava na mente de Seth no momento em que se levantou, deixando de se importar com a quantidade assustadora de sangue que escorria pelo seu nariz e manchava toda a sua velha e esfarrapada roupa. Não merecia morrer porque era um demônio, nem merecia morrer porque estava causando sofrimento a ele, esses seriam motivos mais complexos. Ele merecia morrer simplesmente porque estava vivo, e estava ali na sua frente, e Seth não fora com a sua cara.
    Seth levantou-se e ficou de pé, na postura de um lobo que está pronto para atacar. Sua respiração estava acelerada, mas seu coração batia calmamente dentro de seu peito. Já enfrentara diversos inimigos, animais mais perigosos que seres humanos, e sempre saíra melhor. Com o tempo aprendeu a deixar que o instinto o guiasse com sabedoria. E força, pois ele não mais mediria esforços para matar aquele homem. Assim foi deixando toda a sua ira e vontade de matar tomar conta de sua mente. A sensação de euforia o atingiu mais uma vez, uma sensação que ele não sentia há muito tempo, desde que matar ursos tinha se tornado fácil.
    - Muito bem – Agares disse, como se imitasse um imperador. – Comecem a segunda rodada!






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Mensagem por Led de Coma Berenices em Dom Abr 26, 2015 5:54 pm





      Seth acompanhou aquele homem gigante vir em sua direção com um olhar concentrado. Sabia exatamente como procederia assim que ele chegasse perto o suficiente para que fosse alcançado por um golpe. Mantinha-se agachado com os dentes à mostra. A dor em sua costela aumentara devido ao esforço em ficar curvado sobre o abdômen.
      O homem estava chegando mais perto e uma fração de segundo foi tudo o que precisou para Seth conseguir reparar com detalhes vivos os traços físicos de Eli. Reconhecia, nos recônditos de sua mente, os traços físicos de um afrodescendente (por alguma lembrança que tinha antes de acordar naquele deserto gélido há oito anos) e sabia que o corpo daquele demônio era inspirado em um. Seus olhos eram negros como jabuticabas e sua cabeça era raspada, sem o menor sinal de pelos. Em seu peito, na altura do coração, havia uma marca fina, mas profunda e mal cicatrizada. O desenho combinava com uma lança, ou talvez com uma espada. Em seus pulsos havia uma marca mais escura, que cobria toda a sua extensão. Seth relacionou essa marca, imediatamente, a cordas.
      Corpos materiais são fáceis de conseguir hoje em dia. Agares tinha dito antes. E então ele percebeu que aquele corpo não fora criado nos moldes de um afrodescendente. Aquele corpo pertencera a um afrodescendente, provavelmente feito de escravo (o que explicava as marcas de corda nos pulsos, de quando estava preso) e a cicatriz no peito, provavelmente deixada por algum soldado que não suportou sua insubordinação. Esse pensamento passou em um instante pela mente de Seth, que logo depois o ignorou, afinal não se importava com quem aquele homem tinha sido, apenas se importava em matá-lo agora, pela segunda vez.
      Eli chegou perto o bastante e Seth resolveu agir. Com um rápido movimento, ele pegou um punhado de areia e jogou-o nos olhos do homem, que parou imediatamente, levando as mãos aos olhos na tentativa de retirar toda aquela areia que naquele momento queimava sua retira devido à temperatura. Enquanto o homem soltava um grito alto, com uma voz quase animalesca, Seth deu-lhe uma canelada na parte de dentro da perna esquerda, fazendo-o perder o equilíbrio e cair de joelho na areia, tirando a mão dos olhos e socando o ar, à procura do rosto do aspirante a cavaleiro, em vão. Seth deu uma joelhada no centro do tórax de Eli, que soltou um gemido logo abafado por um soco na maçã do rosto.
      Sem ter vontade de parar, Seth acertou outro soco no rosto do homem, que a esse momento cuspia um pouco mais de seu sangue, mas ainda procurando-o com seus braços, sem se levantar. Sem pensar duas vezes, Seth esquivou-se de um soco que o acertaria em cheio e, enquanto o braço de Eli ainda estava esticado, segurou-lhe o pulso e, com a outra mão, deu-lhe um soco no cotovelo com tanta força que fez o braço do homem dobrar-se ao contrário, ao mesmo tempo em que a ponta de sua ulna rasgou fora sua pele e ficou à mostra, jorrando um sangue escuro e viscoso.
      - Ui… - Agares deixou escapar, com um leve tremor de divertimento.
      Eli gritou enquanto se jogava no chão, segurando o braço que teimava em movimentar-se como se estivesse separado do corpo. E praticamente estava.
      Seth esboçou um sorriso malicioso, sentindo-se vivo por estar infringindo sofrimento àquele demônio. Abaixou-se e tirou o homem do chão, segurando-o pelo pescoço. Mesmo ajoelhado, Eli era quase da altura de Seth, e assim ele pôde olhar diretamente nos olhos do homenzarrão, que já não mais enxergavam. A temperatura da areia estava tão alta que suas retinas foram queimadas e os olhos agora eram um misto de vermelho sangue e irritação. Seth notou que ele não mais se defendia, talvez estivesse em um estado de transe, ou sem forças para fazer algo, mas ele não se importou. Com sua mão direita deu um soco com todas as forças no rosto do homem, enquanto com sua mão esquerda ele segurava sua cabeça. Um corte foi aberto no supercílio e o sangue começou a sair. Extravasando sua raiva, Seth deu-lhe mais um soco, e depois outro, e outro. Até que não conseguia mais parar.
      Ficou ali por cerca de cinco minutos dando diversos socos no rosto de Eli, que não mais gritava ou se movimentava. Na verdade, sua cabeça estava completamente deformada e havia um profundo afundamento de crânio, o que significava que o mesmo já estava morto há um tempo. Seth não se importou com os esguichos de sangue que lhe atingiam o rosto, apenas continuou batendo até que toda a sua raiva e sede de morte passasse, e só aí parou. O cheiro de sangue e miolos tomou conta do ar quente e seco ao seu redor, Seth o inalou sem perceber, pois já havia sentido aquele cheiro diversas vezes.
      - Estou espantado – Agares o tirou do frenesi, dando um assovio de excitação. – Se eu soubesse que você era assim teria pegado sua alma para mim.
      Seth soltou o homem morto, que caiu no chão acompanhado de um som de tripas e sangue, que escorria pela sua face. Após dar conta de si, o aspirante a cavaleiro olhou para sua mão e notou que a havia quebrado, depois de tantos socos.
      - Vou reparar isso aí, você não está apresentável para o santuário. – E com um estalo de dedos, Seth sentiu seus ossos voltarem para o lugar e seus ferimentos desaparecerem, e logo a dor também cessou. Sua roupa foi modificada para o que ele pensou ser o uniforme dos aspirantes a cavaleiro. – Lógico que eu odeio aquele lugar, mas sabe como é, nós temos de manter as aparências. Respeito mútuo existe até entre o céu e o inferno.
      E então soltou uma risada irônica e pronunciou algumas palavras irreconhecíveis. Seth, agora limpo e apresentável, já percebera que aquelas palavras eram espécies de feitiços, ou magias, e ele não se esforçava mais para entender. Em um instante tudo a sua volta mudou. Todo aquele infinito mar de areia foi substituído por um salão comprido adornado por pilastras espaçadas entre si por distâncias idênticas. A temperatura do ar logo mudou e o clima seco e quente se tornou refrescante e fácil de respirar. O chão, antes formado por areia, agora era de um granito polido e bonito, como se fosse talhado especialmente para aquele lugar.
      Ao seu redor Seth avistou homens vestidos com a mesma roupa que ele, e parecendo tão perdidos quanto ele. Havia dezenas de aspirantes a cavaleiro naquele salão, dos mais variados tipos físicos e nacionalidades. Alguns pareciam amedrontados, enquanto outros pareciam muito confiantes. Vários deles conversavam entre si, como se já estivessem fazendo amizades, ou alianças, mas isso não assustou Seth. Ele estava lá para se tornar um cavaleiro de ouro, pelo que entendera até o momento, então pelo visto aqueles seriam seus competidores. Isso lhe dava mais vontade de competir pela armadura, pois em sua mente ele poderia se ver matando cada um daqueles homens, e isso lhe divertia, afinal isso era o que ele fazia de melhor. Estranhamente, no entanto, nenhum deles pareceu se importar com sua súbita aparição. Provavelmente isso não era novidade naquele momento.
      - Muito bem, cavalheiros. – Seth ouviu uma voz vinda do fundo do salão e percebeu que, um a um, os homens ajoelhavam-se em sinal de respeito. Ponderou se deveria fazer o mesmo e decidiu por não se ajoelhar. Ele não conhecia o homem que lhe falava, então não lhe devia respeito e muito menos apreço. Manteve-se de pé e percebeu que alguns outros também fizeram o mesmo. – Sejam bem vindos ao santuário de Atena.
      Seth percebeu que era um homem alto, musculoso e de pele clara. Seus cabelos eram avermelhados e compridos, dando-lhe um ar jovial apesar de ter provavelmente quarenta anos. Vestia uma blusa e uma calça, ambas brancas, e caminhava tranquilamente entre os homens ajoelhados. Ele claramente percebeu que Seth e outros três homens não se ajoelharam e apenas sorriu para eles, como se não se importasse.
      - Me chamo Ymir – Ele disse, dando um sorriso sincero para todo o salão. – Sou o atual cavaleiro dourado de Aquário. Defendo a décima primeira casa do santuário de Atena. Infelizmente para mim e felizmente para vocês, eu estarei me aposentando do cargo de cavaleiro de ouro em breve e estou procurando um substituto. Vocês, que estão aqui, foram os escolhidos para tomarem o meu lugar.
      Ele abriu os braços como se quisesse englobar todo aquele salão em um abraço cordial.
      - Claro que apenas um de vocês chegará ao final e se tornará o meu sucessor, e só então terá a oportunidade de treinar comigo. Para isso cada um de vocês passará por testes dos mais variados. Evidentemente devo dizer que o risco de morte é real e muito alto durante o treinamento, por isso sintam-se livres para desistir antes que o pior aconteça, não os impedirei. Entendam, entretanto, que o teste começou quando cada um de vocês foi enviado para os seus respectivos treinamentos iniciais, onde cada um passou por testes pessoais. Portanto se vocês estão aqui, significa que um número duas vezes maior não conseguiu chegar tão longe. Devo-lhes os parabéns.
      Ele caminhou mais um pouco entre os aspirantes e parou na frente de um dos quatro homens que não se ajoelhara. Encarou-o diretamente nos olhos e logo depois olhou para Seth.
      - Uma coisa que eu devo dizer é que entender os princípios da submissão é uma virtude. Vemos aqui algo muito interessante – E aumentou sua voz para ser ouvido por todo o salão, como um professor faz quando quer explicar algo importante. – Temos quatro homens que não conhecem a virtude da submissão. Quatro é um número muito grande de insubmissos entre vocês, a meu ver. Então vou começar o primeiro desafio, apenas para esses quatro! Eles deverão lutar entre si, em uma arena. Apenas um deverá sair de lá como vitorioso. A partir daí esse único será merecedor de meu respeito, apesar da insubordinação.
      Ymir falava com um bom humor e um respeito considerável, demonstrando ser um homem sábio. Ao mesmo tempo, demonstrava ser impiedoso e compenetrado, o que explica esse primeiro teste improvisado. Submeteria quatro homens a um duelo até que apenas um ficasse de pé pelo fato deles não terem se ajoelhado em sinal de submissão. Seth percebeu que o título de cavaleiro de ouro era algo bem respeitado nesse meio, mas isso não lhe interessava. Estava feliz pelo primeiro teste, poderia mostrar toda a sua voracidade e força antes dos outros, e tinha certeza de que sairia vitorioso.

      Dez minutos depois ele se encontrava em uma arena circular, com um chão de terra batida e uma enorme arquibanca que circundava todo aquele lugar. Sentiu-se como se estivesse no Coliseu (que ele lembrava, assim como outras memórias aleatórias de lugares que tinha em sua mente) de Roma. Estava de frente para o homem que Ymir abordou primeiro, do seu lado direito havia um jovem de punhos cerrados e peito estufado, do lado esquerdo ele viu um homem magro com uma aparência frágil e um rosto pálido. Na arquibancada encontravam-se os outros aspirantes a cavaleiro de aquário, todos sentados e aparentemente ansiosos pela batalha. Seth pensava consigo mesmo que daria àqueles homens o que eles queriam, um banho de sangue e morte, e mostraria a cada um deles que o título de cavaleiro de ouro seria dele.
      - Bom – Ymir começou, sentando-se em um trono no alto da arena e dando um sorriso amistoso. – Estou ansioso para ver quem será merecedor do meu respeito. Não poupem suas forças.





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Mensagem por Câncer em Dom Abr 26, 2015 8:54 pm
Avaliação
Treino

EEstou sem palavras para descrever seu treino, foi simplesmente perfeito. Sua escrita me prendeu cada segundo e me deixou ainda mais curiosa sobre a sua história. Está de parabéns.

Recompensa:

+4 Lv para cada treino.
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Mensagem por Led de Coma Berenices em Qua Abr 29, 2015 7:05 pm





      A batalha tinha começado. Este seria o primeiro teste que Seth enfrentaria após sair daquele inferno congelante no qual passou oito anos de sua vida. Os únicos oito anos de que se lembrava, visto que toda a sua memória prévia havia sumido. Ele não tinha certeza sobre seu nome verdadeiro, sua idade, sua família ou o motivo de tudo aquilo, mas de uma coisa ele sabia. Ele aprendera a se defender. E, acima de tudo isso, ele aprendera a matar. Durante os oito anos que passou naquele lugar ele desenvolveu técnicas e descobriu pontos vitais que poderiam fazer seus inimigos, até o maior deles, desabar com um só golpe. A princípio usara suas técnicas apenas em animais silvestres, para se alimentar e se defender. Ultimamente, no entanto, já havia assassinado três seres humanos antes de se encontrar com Agares, e um demônio, enviado pelo mesmo para um teste final.
      Agora estava ali, diante de outros três seres humanos que, dessa vez, ele realmente tinha um motivo maior para matar, além da sensação de prazer e do gosto de sangue que ele sentia em sua boca toda vez que via o último suspiro de vida se esvair dos olhos de algum ser vivo, agora seu motivo era maior. Eles eram seus adversários, seus competidores para tomar o posto de cavaleiro de ouro.
      Seth sabia, no fundo, que esse título lhe conferiria muito poder, e isso lhe agradava. Não se importava com os outros, mas ainda tinha traços narcisistas em sua personalidade que ele atribuía ao seu passado, do qual não se lembrava. Ele sabia que a sensação de poder seria um excelente estímulo para que ele se tornasse cada vez mais forte, e nada o impediria de conseguir aquela tal armadura de ouro de aquário.
      Um grito ameaçador o fez voltar à realidade. O homem que estava diretamente à sua frente urrava e corria em sua direção com os punhos cerrados, demonstrando uma postura agressiva. Em uma fração de segundo Seth observou que o homem à sua esquerda, magro e pálido continuava parado, olhando fixamente para o último homem, que estava à direita de Seth. Esse, por sua vez, parecia não se mexer, como se algo o estivesse fazendo hesitar.
      - Este é seu último dia no plano terreno! – O homem que vinha correndo gritou, olhando fixamente nos olhos de Seth enquanto se aproximava. Ele tinha o cabelo cortado baixo, delineando perfeitamente sua cabeça oval. Sua pele era morena, mas não negra, e seu corpo era musculoso e repleto de cicatrizes. Os olhos eram cor de mel, contrastando com aquele tom de pele, conferindo ares mediterrâneos. – A armadura será minha!
      Ele chegou para perto de Seth, que pulou para trás, ganhando espaço e tempo enquanto prestava atenção nos outros dois competidores. Com o tempo aprendera a focar sua concentração em diversas coisas diferentes, de modo que minimizasse ao máximo as chances de ser pego desprevenido.
      Aquele homem que estava à sua frente, agora tentando acertar-lhe golpes enquanto ele desviava, não apresentava uma ameaça real. Seth estava mais preocupado com os outros dois competidores, que ainda não haviam se movido. O homem pálido ainda estava de pé olhando o outro fixamente, parecendo extremamente calmo. O outro homem, no entanto, parecia falar algo enquanto rangia os dentes, e Seth pôde notar que ele suava e suas veias da testa saltavam levemente, demonstrando algum esforço.
      - Patético – Seth disse, sendo a primeira vez em que pronunciava alguma palavra entre um golpe e outro. E então com um rápido movimento ele se esquivou para o lado de um chute frontal do grandalhão e girou os quadris para aplicar um chute giratório. Seu calcanhar acertou em cheio a nuca do homem, que soltou um grito (por susto e por dor, ao mesmo tempo) e tombou para frente, acertando o chão em cheio com seu rosto.
      O homem rapidamente levantou-se, esfregando a nuca na esperança de diminuir a dor. Pronunciou algumas palavras em um idioma desconhecido para Seth, mas que ele tinha certeza de serem pejorativas, e desferiu-lhe um soco direto com a mão direita. O soco acertou a maçã do rosto de Seth, que perdeu o equilíbrio, recuando alguns passos. Logo depois ele sentiu algo acertar-lhe a costela. Era outro soco, dessa vez baixo, mirado exatamente naquele lugar. Seth soltou um grunhido involuntário e percebeu mais um golpe vindo em sua direção. Esquivou-se rapidamente para trás e viu o punho esquerdo do homem passar a milímetros da ponta de seu nariz. Seth sorriu e deu um salto para trás, olhando o homem nos olhos ao mesmo tempo em que prestava atenção nos outros dois pela sua visão periférica.
      - Creio que te subestimei – O homem disse, mantendo a compostura e mostrando a Seth os grandes e brancos dentes, numa tentativa de sorriso amistoso. – Não pegarei tão leve agora.
      Ele começou, novamente, a correr na direção de Seth com a mesma dedicação prévia. Seth preparou-se para desferir um golpe na direção do centro do tórax do homem (que ele sabia que pararia seu coração no pior dos casos), mas de súbito ele parou. Parou como se tivesse sido transformado em pedra, na mesma posição de ataque em que estava um segundo antes. Seus olhos se arregalaram lentamente, fitando o infinito, enquanto sua boca se recurvava para baixo e se abria. Em seu rosto agora estava estampada uma expressão de medo extremo. Ele não falava nada, apenas emitia grunhidos, como se estivesse sofrendo alguma possessão.
      - Mas que… - Seth começou a falar, mas foi interrompido por algo que se moveu em sua direção no canto de seu olho direito. Não teve tempo de virar o rosto, apenas de dar um salto para frente e cair no chão, fazendo um rolamento e assumindo uma posição agressiva de ataque. Ele estava, agora, ao lado do homem com quem lutara até o momento e ele ainda fitava o infinito sem se dar conta de sua presença. Seth olhou para os outros dois competidores e percebeu que o homem de peito estufado ainda estava paralisado e, curiosamente também fitava o infinito.
      O outro homem, no entanto, estava com a mão esticada na direção de onde Seth acabara de saltar, estalando a língua em um sinal de reprovação por ter errado algo que acabara de fazer. Esse algo, Seth sabia, era o que ele acabara de desviar, mas não teve tempo de perceber a forma do objeto.
      Após olhar o homem por um instante, Seth pensou ter visto algo sombrio e obcuro atrás dele. Como uma sombra negra, uma aura envolvendo todo o seu corpo. No mesmo momento ele sentiu uma presença extremamente forte, como se houvesse um quinto competidor no recinto, pronto para atacá-lo. A aura tomou o formato de um corpo, ainda que não fosse possível distinguir formas. Apenas uma coisa chamou sua atenção. A aura negra e claramente má possuía braços e pernas e um formato que parecia uma cabeça. Era como se alguém estivesse montado sobre o corpo do homem e agora resolvesse se mostrar. O que lhe chamou a atenção, na verdade, foi que logo acima do que pareciam ser os braços, surgiu uma extensão sombria de cada lado do corpo. Essa parte se movimentou para cima e para baixo e aumentou de volume, delineando muito bem (melhor do que o resto) o que aquilo parecia. Eram asas.
      No mesmo instante em que Seth presenciou a aparição daquela figura assustadora um movimento começou na plateia junto com um murmúrio
      - Saia daí! – Ymir gritou, saltando do trono e correndo na direção da arena.
      Seth não teve tempo de reagir quando o homem veio em sua direção, ainda coberto pela aura negra, em uma velocidade impressionante e o acertou com um golpe no abdômen, que lhe jogou do outro lado da arena. Suas costas bateram contra a mureta de pedra e ele soltou um grito abafado. Seu corpo foi jogado para frente pela força do golpe, mas antes que ele caísse no chão, o homem lhe acertou outro golpe, dessa vez na lateral do rosto. Ele sentiu como se uma marreta lhe batesse a cabeça e seus dentes cortaram a parte interna de sua face, fazendo-o cuspir uma quantidade considerável de sangue enquanto tinha seu corpo jogado do outro lado da arena.
      Seu pensamento foi instantaneamente na força descomunal daquele homem, que não combinava com sua aparência frágil e débil. Não teve tempo, porém, de continuar seus pensamentos, pois seu corpo foi de encontro ao chão, arrastando dolorosamente até parar.
      Estava a metros de distância daquele homem, com o corpo dolorido e com ferimentos no rosto. Ele viu de relance Ymir chegar ao solo.
      - Como se atreve? – O cavaleiro de aquário gritou, com uma voz imperativa, fitando o homem débil. – Você está em solo sagrado, retire-se se não quiser morrer!
      O homem deu uma risada de escárnio e mexeu suas mãos de uma maneira estranha. No mesmo instante os outros dois competidores que, até agora, estavam parados fitando o nada, correram na direção de Ymir. Ele esperou os dois chegarem perto e, num movimento que Seth mal conseguiu ver, derrubou os dois ao mesmo tempo.
      Seth ficou impressionado pela velocidade do cavaleiro, ao mesmo tempo em que uma luz dourada cobria seu corpo e ele sentia um poder extremo emanando daquela aura dourada. Em um instante seu corpo foi recoberto quase completamente por uma armadura dourada, que brilhava como ouro. Era a armadura dourada de aquário.
      O aspirante a cavaleiro ficou impressionado pela primeira vez desde que acordara há oito anos nas terras gélidas. Uma aura dourada cobria todo o corpo do cavaleiro e aquela armadura reluzia demonstrando um poder intenso. Tão intenso que Seth quase pôde palpar. Sentiu seu coração acelerar e percebeu que ali haveria uma batalha de poderes imensos.
      - Diga seu nome, espectro!
      - Você já esqueceu? – O homem riu. Sua aura negra aumentara de tamanho e agora parecia cobrir seu corpo totalmente. – É um prazer revê-lo, Ymir de Aquário.
      De súbito o corpo do homem começou a se envergar enquanto era cercado por aquela aura negra. Ele abaixou-se até o chão como se tivesse acabado de levar um golpe na boca do estômago. Seth pôde perceber que a pele em suas costas começava a rasgar aos poucos, mas não jorrava sangue. Apenas parecia um corpo trocando de pele e, aos poucos, toda a pele do homem foi se desfazendo, dando lugar a um homem de cabelos claros, trajando uma armadura negra, que tinha um brilho púrpura e um poder maligno tão forte que impediu até os mais primitivos reflexos de Seth de atacar ou correr. Quando o homem saiu completamente de seu casulo, o aspirante a cavaleiro pôde perceber que aquele “espectro”, como tinha dito Ymir, também era um cavaleiro, mas não como os cavaleiros de Atena. Sua armadura negra e aura maligna demonstravam que eram, com toda a certeza, de uma vertente contrária aos cavaleiros de Atena, que eram seus inimigos. E pela quantidade de poder que Ymir demonstrava naquele momento, com seu corpo extremamente tenso e rígido, aquele não era um simples soldado inimigo.
      - Minos de Griffon – Ymir falou, mostrando todo o seu desprezo por aquele espectro. – O que está fazendo nessas terras santas? Você não merece estar aqui.
      - Vim apenas fazer uma visita, cavaleiro – Minos falou, com um sorriso cordial. Seu rosto jovem lhe dava uma aparência de alguém que estava no auge de sua juventude, com todo o poder pronto para ser emanado. – Queria ver seus possíveis sucessores. Mas ainda preciso testar uma última coisa.
      Ele riu e esticou a mão para Seth, que não teve tempo nem reflexo suficiente para desviar do projétil que vinha em sua direção. O projétil saía da ponta dos dedos e Minos e convergia para um único ponto, como uma linha fina e brilhante, que atingiu Seth quase no mesmo instante em que saiu de seus dedos. Ele sentiu uma onda de choque percorrer seu corpo de tal forma que pareceu perder a coordenação de todos os movimentos.
      Por um segundo pensou que estivesse morto, mas quando voltou a dar por si, estava de pé, olhando tudo a sua volta, com plena consciência de seu pensamento. Mas não conseguia controlar seu corpo. Sentiu algo involuntário movendo seu corpo, que começou a correr na direção de Ymir. Tentou gritar ao mesmo tempo em que tentava parar, mas não conseguia. Apenas via a si mesmo indo na direção de Ymir, que torcia os lábios de forma triste e se preparava para se defender.
      - Vamos ver qual o poder total de seus aspirantes, cavaleiro! – Minos gritou, enquanto movia suas mãos.
      E foi então que Seth entendeu.
      Entendeu que, assim como os outros dois, ele estava sendo controlado por aquele espectro. Aquelas linhas que os ligavam pareciam extremamente fortes e conseguiam controlar completamente seu corpo, apesar de ele ainda estar consciente do que fazia. E era exatamente por isso que agora ele se preocupava. Preocupava-se simplesmente pelo fato de que estava totalmente consciente de que corria na direção de um cavaleiro de ouro, um homem até então infinitamente mais forte que ele, que havia derrubado seus outros dois competidores com apenas um golpe, antes mesmo de vestir sua armadura. Percebeu que, se Ymir assim desejasse, poderia acabar com sua vida naquele momento e partir na direção do espectro, que com certeza lhe seria um adversário à altura.
      Assim que chegou perto o suficiente de Ymir ele ouviu uma frase, apenas uma, que lhe aumentara a preocupação exponencialmente. Ouviu apenas uma frase, antes que seu mundo se tornasse negro e apagasse completamente com um golpe que ele nem mesmo pudera ver. Um golpe que lhe fizera sentir uma dor tremenda por um milésimo de segundo antes que não pudesse sentir, ver ou ouvir mais nada. Apenas ecoou em sua mente aquela frase que Ymir dissera um instante antes.
      - Eu sinto muito…





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Mensagem por Câncer em Qui Abr 30, 2015 1:20 am
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Mais uma vez um treino ótimo, me prendeu do início ao fim, acho que não preciso tecer mais elogios sobre a sua escrita. Parabéns meu jovem, está trilando o caminho certo até a sua armadura

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Mensagem por Led de Coma Berenices em Sab Maio 02, 2015 3:32 pm

Calmaria
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         Seth não sabia quanto tempo se passara desde que fora abatido por Ymir enquanto estava sob controle de um espectro. Não sabia se estava vivo ou morto naquele momento, ou mesmo se estava acordado ou não. Apenas sentia sua existência.
         Sua mente parecia vagar por todo o universo e ao mesmo tempo por lugar nenhum, e ele nada sentia com isso. Não sentia frio ou calor. Não sentia movimento, altura, forças externas. Não ouvia sons e nem via nada. Não que ele não estivesse enxergando, mas naquele momento ele parecia nunca ter tido o atributo da visão. Era como se ele fosse um ser que não soubesse o que é enxergar.
         Acorde.
         Ele apenas sentia, naquele momento, que existia. Era parte de uma existência maior. Sua consciência tinha plena noção do que acontecera até ali e ele podia jurar que se lembraria dos eventos anteriores ao seu despertar na nova vida, há oito anos, se ele assim o quisesse. Mas ele não quis. Ele apenas queria manter-se naquela plenitude, pois pela primeira vez ele se sentia completo de alguma forma, mesmo sem entender muito bem em qual forma.
         Ele esforçava-se para se mover, mas não podia sentir suas terminações nervosas, portanto não sabia se estava de fato se movendo ou não. Naquele momento ele se via como uma gota de água em um oceano, ele sentia-se parte do todo, ainda que conservasse sua individualidade. Sabia que estava ali e que sua presença alterava algo, mas não podia mudar o rumo das coisas. Exatamente como uma gota no oceano calmo e pacífico da existência. Sem ondas grandes, apenas um pequeno movimento fluido e repetitivo de água.
         Acorde.
         E, de repente, toda a água de seu oceano particular se congelou e trincou. Ele agora podia sentir um frio muito superior a qualquer um que ele sentia nos anos de treinamento prévio. Seth sentiu o oceano inteiro congelar até o ponto mais infinitesimal e, com um grande estouro, se despedaçar em milhões de pedaços, acompanhado do forte barulho de gelo trincando.
         - Acorde!
         Um grito ecoou em seus ouvidos ao mesmo tempo em que ele abriu os olhos e levantou seu tronco rapidamente. Seth sentiu uma descarga de adrenalina correr em seu corpo, que estremeceu e enrijeceu.
         Ele estava sentado em um chão liso e frio, de granito. À medida que sua visão se recuperava, o aspirante a cavaleiro viu que estava em um grande salão, com altas pilastras. Seu corpo estava com frio e ele podia ver a condensação de sua respiração ofegante. Percebeu dezenas de pares de olhos nele e procurou de onde vinha a voz.
         - Pensei que não fosse acordar mais – Ymir estava agachado ao seu lado, dando um sorriso cordial.
         - E eu pensei que estivesse morto – O tom saiu mais rude do que ele gostaria.
         O sorriso de Ymir sumiu. Seth percebeu a tensão no ar aumentar após pronunciar suas últimas palavras. O cavaleiro de aquário (agora sem sua armadura) se levantou, fitando o horizonte. Os olhos arregalados dos outros aspirantes o encaravam, como se esperassem alguma resposta. De acordo com os cálculos de Seth, o número de pessoas naquele salão era menor do que o que ele se lembrava.
         - Você deveria estar – Ymir disse, torcendo a boca e caminhando para longe dele, sem olhar para trás. Em seguida aumentou o tom de voz. – Voltem para seus aposentos e descansem pelo resto do dia. Amanhã ao nascer do sol começaremos o treinamento.
         E sumiu em meio aos aspirantes, que se ajoelharam em forma de respeito à medida que ele passava.
         Seth continuava sentado, esforçando-se para levantar e se perguntando o que teria acontecido ali. Notou que não sentia nenhuma dor no corpo, apenas um frio descomunal, e sentia as pernas dormentes. Tentava imaginar o que teria acontecido, recapitulando as últimas imagens que tinha em sua mente, mas não conseguia chegar a uma conclusão. Ele deveria estar morto, como o próprio Ymir dissera, mas não estava. E isso era algo realmente estranho.
         Aos poucos os aspirantes a cavaleiro tomaram seu rumo para uma passagem na lateral do salão, para o que poderia ser a parte daquele lugar onde ficavam os aposentos. Apenas alguns ficaram no salão, conversando entre si assuntos aleatórios, que Seth não deu a mínima. Estava mais preocupado com sua situação naquele momento, e também se perguntava onde estariam seus competidores e o espectro que lhe atacara. Parece que ainda havia muitas perguntas a serem respondidas.
         - Você está bem? – Uma mão apareceu no canto da vista de Seth, como se quisesse oferecer apoio para que ele se levantasse. Ele a olhou e depois olhou para o dono da mão, um homem de altura mediana, loiro e sem muitos músculos. Seu cabelo era comprido e ondulado, e seus olhos eram de um azul quase da cor do céu. Ele dava um sorriso que passou a Seth uma sensação de tranquilidade, mas ele não estava com paciência para isso, então olhou para a mão do homem, virou a cara e reuniu sua última reserva de força para levantar-se sozinho e virar de costas para ele, caminhando na direção dos aposentos.
         Seth caminhava lentamente, ainda testando suas pernas, quando sentiu uma mão em seu ombro. Seu corpo enrijeceu instantaneamente. Ele se virou bruscamente, para retirar a mão de seu ombro, e viu que era o mesmo homem loiro que acabara de lhe falar.
         - Ei, calma! – Ele disse, levantando as mãos e inclinando um pouco a cabeça para o lado. – Meu nome é Alexei.
         - E daí? – A voz de Seth saiu rude e agressiva, o que fez o homem recuar um passo, mas sem perder a calma. Em outra hora ele teria atacado impiedosamente esse homem simplesmente pelo fato de ele estar ali na sua frente, mas estava cansado demais para isso, e sabia que se o fizesse, perderia a chance de conquistar a armadura de ouro de aquário.
         - Bom – Alexei olhou para os lados lentamente, e logo depois olhou para Seth. – Só queria me apresentar. Imaginei que você estivesse confuso em relação ao que aconteceu com você mais cedo. Eu estava na plateia, fiquei até o final, posso te contar o que houve, caso queira. Mas primeiro eu queria lhe propor algo – Como Seth não respondeu, ele continuou no mesmo tom monótono. – Os outros estão começando a formar grupos para se ajudar mutuamente e eliminar os outros candidatos. Vim falar com você porque vi, pelo jeito que você luta, que você é alguém forte e, modéstia à parte, eu também sou. Acredito que nós dois, juntos, podemos chegar muito mais longe aqui do que separados. O que acha disso?
          Seth olhou para Alexei sem demonstrar nenhuma emoção. Ele já sabia, graças ao seu grande poder dedutivo, que Alexei queria sua aliança porque não o queria como adversário, o que podia significar que ele temia que Seth fosse mais forte que ele. Sabia também que o loiro estava certo ao dizer que os outros já estavam começando a formar grupos e que, pela lei de sobrevivência, ele também deveria fazer parte de um (por mais que odiasse essa ideia). E por último, Seth gostaria muito de saber o que havia acontecido após desmaiar e Alexei poderia dizer-lhe, diferente dos outros, que agora olhavam para ele como se o estranhassem por algum motivo. Pensou nesses aspectos durante dois segundos e então decidiu o que fazer.
         - Meu nome é Seth – E forçou um sorriso. Ele tinha plena consciência de que os outros não sabiam pelo que ele passara para chegar ali e, consequentemente, não sabiam que ele se tornara indiferente à vida de outras pessoas. Isso significava que ele poderia usar sua inteligência (acima de seus instintos) para conseguir chegar onde queria, mesmo que isso significasse jogar com as pessoas. De qualquer forma ele não se importava.
         Alexei sorriu para ele e ambos caminharam na direção dos dormitórios. Após atravessar a grande porta de madeira do salão, Seth entrou em um lugar completamente diferente com móveis revestidos por madeira Real, com carpete cobrindo quase todo o chão, velas dispostas de maneira a dar um ar aconchegante e quadros diversos pendurados nas paredes. Instantaneamente ele se lembrou de quando atravessou o portal de Agares, que o levou das terras gélidas a um deserto escaldante, e então se perguntou onde aquele demônio estaria. Seu pensamento logo se esvaeceu quando reparou que estava andando por um corredor comprido, com diversas portas dos dois lados, que Seth pôde perceber que eram os aposentos. Eles continuaram caminhando, Alexei falava sobre coisas que Seth não dava importância.
         Todas as portas pelas quais eles passavam estavam fechadas. Isso passou a Seth a mensagem de “quarto ocupado”. Logo ele percebeu que os quartos livres seriam os últimos dos corredores, e provavelmente seriam os piores, mas ele passou oito anos dormindo ao relento sobre a pele de animais mortos, não se importaria de dormir no chão.
         Eles caminharam mais alguns segundos até que encontraram uma porta à direita aberta. Seth entrou na frente de Alexei e examinou o quarto. Tinha duas camas, uma mesa de centro e uma grande janela, que dava para um jardim florido e belo. O quarto tinha uma estrutura pobre, mas serviria para seu único propósito, que era o de dormir. Ele percebeu, a contragosto, que teria de dormir no mesmo quarto que o seu mais novo conhecido, por mais que ele preferisse ficar sozinho em algum quarto (hipótese que ele cogitou, porém logo desistiu, afinal ele precisava fazer de Alexei seu aliado).

         Roupas foram dadas a cada um dos aspirantes a cavaleiro e, após de se assentarem e banharem, o jantar foi servido. Uma comida realmente preparada que Seth mal lembrava o gosto. Na verdade ele não lembrava, pois não tinha memória da última vez em que comera algo caseiro. Após o jantar todos deveriam voltar aos seus aposentos para que dormissem e continuassem o treinamento na manhã seguinte.
         - Então – Seth disse, já deitado, enquanto Alexei arrumava sua cama. – Conte-me o que houve lá.
         - Foi uma loucura – Alexei começou. Sua voz tinha um leve tom de empolgação. – Quando aquele espectro apareceu as coisas ficaram complicadas. Alguns outros aspirantes desistiram na mesma hora e foram embora, mas a maioria ainda quis ficar para assistir. Nós não reparamos que ele estava controlando os outros até o momento em que você atacou Ymir. Foi nessa hora que eu percebi que havia alguma coisa errada ali. Alguns disseram ter visto algo parecido com fios, ou linhas, saindo dos dedos dele, como se estivesse controlando marionetes.
         Seth concordou com a cabeça, olhando para o teto. Realmente existiam fios controlando seu corpo, e “marionete” era o termo perfeito para aquilo. Pretendia continuar ouvindo Alexei até que ele lhe contasse exatamente o que acontecera naquela noite. Não tinha motivos para não confiar nele, pois não haveria o porquê de mentir naquela situação.
         - Quando você chegou perto dele – Alexei continuou. – Ele se moveu tão rápido que ninguém percebeu que ele estava atrás de você dando uma cotovelada na sua nuca até o momento em que você caiu no chão, desmaiado. Depois disso ele aumentou muito o poder dele. Quando ele avançou pra atacar o espectro ele parecia outra pessoa. Eles brigaram por um tempo, mas a gente não conseguia enxergar direito. Dizem que os cavaleiros de ouro se movem mais rápido do que os olhos enxergam! Tudo o que eu percebi foi que depois de algum tempo Ymir e o espectro estavam medindo forças com as mãos, como se um tentasse empurrar o outro, sabe? Foi aí que Ymir elevou o poder dele assustadoramente… De repente ele soltou do corpo dele uma energia que congelou instantaneamente tudo em volta dele! Inclusive você, os outros dois competidores e o espectro. Nós na plateia só não congelamos também porque quando chegou na gente já não tinha mais tanta força…
         Seth surpreendeu-se com esse detalhe. Então ele realmente foi congelado, talvez isso explicasse o frio que seu corpo estava sentindo. Talvez isso explicasse a sensação que ele teve do mar congelando e o gelo se quebrando. Mas como ele ainda estava vivo?
         - Então tudo ficou tão quieto que a gente achou que o espectro estivesse morto – A voz de Alexei agora estava mais séria, mais sombria. – Mas ele quebrou o gelo com muita facilidade e começou a rir, até sumir de repente. É como se ele tivesse vindo apenas para causar a destruição, e de certa forma ele conseguiu. Depois disso Ymir verificou os corpos e viu que os outros dois competidores estavam mortos, mas você não. Você estava apenas desmaiado, com as funções vitais normais, segundo ele.
         - Como isso é possível? – Seth perguntou enquanto olhava para o teto, demonstrando seu interesse de maneira inconsciente.
         Alexei olhou para ele. Seth pôde ver pelo canto de olho, apesar da escuridão, que o homem loiro esboçara um sorriso de satisfação. Talvez por perceber o interesse de Seth, ou talvez por estar prestes a responder algo verdadeiramente interessante.
         - A única coisa que ele disse – Alexei falou, escolhendo bem as palavras, – foi que você atingiu o sétimo sentido, e que vai ajudá-lo a controlar.
         E então Seth decidiu que já ouvira bastante. Não entendera exatamente o que significava “sétimo sentido”, mas sabia que poderia ser algo diferente em relação aos outros. O fato de ele não ter sido morto por um golpe de um cavaleiro de ouro era um detalhe que não passaria despercebido por ele. E então fechou os olhos, lembrando-se dos últimos anos naquelas terras distantes que ele sequer sabia onde eram. Lembrou-se de todas as dificuldades pelas quais ele passou até o momento em que pegou no sono.
         E foi quando ele sonhou. Pela primeira vez em muito tempo.
         Permitiu-se sonhar. Em seu sonho o mundo poderia parecer melhor do que realmente era, e isso era algo que lhe agradava. Relaxou e, pela primeira vez, teve uma boa noite de sono, sem acordar sobressaltado por algum movimento estranho.
         Mal sabia ele, entretanto, que o futuro lhe guardava momentos não tão felizes quanto seu sonho, e nem tão calmos quanto a sua noite.








Última edição por Seth em Seg Maio 11, 2015 7:32 pm, editado 1 vez(es)
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